Por que a coordenadora pedagógica passou a ser a mais importante profissional da educação brasileira em 2021?

Bateu o sino do retorno às salas de aula. Há sim, a possibilidade de as aulas presencias, parciais, acontecerem já no início do ano letivo para muitas escolas, estados e redes de ensino, visto que temos vacinas chegando.

Porém, sobre os projetos para retorno às aulas eu tenho visto todos falando: secretários de educação, mantenedores de escolas privadas, diretores de escola. Mas, não vi ainda nenhum coordenador pedagógico sendo ouvido, se posicionando a respeito do que vem pela frente ou simplesmente apresentando seu projeto de retorno.

Não há, em minha singela análise, nenhum outro profissional tão importante como este na retomada das aulas, sejam elas presenciais, híbridas, remotas ou qualquer outro modelo. Vamos aos pontos!

Minha observação se deve ao fato de que tem gente pensando que é só retornar as aulas e seguir trabalhando. Mas, não é bem assim não. Calma! Aí é que entra a competência e o papel da coordenadora pedagógica porque só ela pode saber o tamanho do problema que virá, depois de fazer a análise real dos alunos no retorno, do ano passado para este ano.

E do que eu estou falando? Lembram-se das crianças que deveriam ter sido alfabetizadas em 2020? Não estão. Lembram-se das crianças que deveriam ter saído do infantil preparadas pra irem pro primeiro ano? Não estão prontas? Lembram-se das crianças que deveriam ter finalizado a alfabetização 2020? Não finalizaram. Esses são só alguns exemplos de problemas pedagógicos que precisarão de projetos pontuais – papel da coordenadora.

Pois é, nada do que era previsto pra ser construindo no ano anterior foi construído satisfatoriamente. Tudo foi feito dentro do improviso e das limitações de causas e condições de pandemia. Tem muito trabalho que precisa ser refeito, retomado ou simplesmente começado. A pior das condições, a meu ver, é a correção dos erros que foram construídos em casa nesse período. Tanto os erros pedagógicos, de orientações de estudos que foram feitos por pais e responsáveis sem condições ( E eu não os culpo por isso), quanto às faltas na de socialização, na autonomia e no amadurecimento das crianças durante todo este tempo em isolamento.

Sem computar aqui o impacto emocional da pandemia sobre as crianças que nós não sabemos o quanto atingiu ou não o emocional delas. Ou seja, é a coordenadora que tem a hercúlea responsabilidade de orquestrar tudo isto. É a coordenadora que terá que saber ouvir pais eternamente nas suas pressas e reclamações – e acalmar os ânimos. É a coordenadora que terá que ouvir o professor sempre dizendo que não está preparado pra tal – e conduzi-lo e apoiá-lo nesse retorno quase amornado, sem animo. É a coordenadora que terá que, além de fazer tudo isso, dar conta de um ano letivo de 2021 que já começa em dívida pedagógica de 2020. Ou seja, pode computar 2 anos pedagógicos num só. Mas a coordenadora é uma só.

E pra tudo isso a coordenadora pedagógica vai precisar de ajuda. Nenhum diretor de escola pode acreditar que uma só coordenadora poderá dar conta do que vem aí pela frente (Não deixem elas ou eles sozinhos fazerem retorno, não é salutar pra nenhum lado). Mais difícil que adaptar uma escola a um isolamento social e aulas remotas e fazer tudo voltar ao eixo novamente, não importa qual seja esse eixo. No entanto, lembro aqui que pro centro tem que voltar a família do aluno, o aluno, o professor, o planejamento e, sobretudo o conteúdo.

Diretores escolares, secretários municipais de educação e mantenedores, aqui segue meu clamor, quase uma súplica, em nome dos milhares de coordenadores pedagógicos do Brasil afora: Deem a eles apoios, auxiliares, estagiários, companheiros de trabalho e condições diferenciadas para trabalharem. Se houver gratificações, pode acrescentar no contracheque deles também porque merecerão.

Não permitam, senhores diretores, inclusive, que seus coordenadores trabalhem sozinhos nessa missão porque eles não terão como perceber tudo que está por vi. Não será saudável pra nenhum coordenador essa retomada solitária. Se houver a perda dessa retomada nunca mais sua escola entrará no eixo.

E, por último, porém não menos importante, não se esquecer: o coordenador também é humano, também sofreu e está sofrendo tudo que todos sofrem. O coordenador pedagógico sente o que a família . Mas ele precisará, mesmo diante de suas limitações, conduzir seus professores rumo à superação. Cuidado, amparo e afeto são os remedinhos que eles precisarão em grandes doses. Delicadeza para com os coordenadores o tempo todo. Eles são os profissionais que ajudarão escolas e alunos atravessarem o mar revolto.

Que Deus os abençoe e os proteja!!!

Carinhosamente
Prof. Dr. Geraldo Peçanha de Almeida

E os alunos órfãos da escola privada? Quem vai acolhê-los? Como se deve acolhê-los? Por que acolhê-los?

Ninguém falou até agora, mas eu falo, sem nenhum medo e constrangimento, porque estou certo que é preciso. O que vai acontecer com os meninos e meninas que, em 2021 pisarão pela primeira vez numa escola pública? Como sabem, há entre 47 – 50 milhões de alunos matriculados no Brasil na escola básica. Desse total, entre 8-10 milhões estavam numa escola privada.

Segundo os dados do final do ano 2020, cerca de 10% desses alunos da escola privada já haviam cancelados suas matrículas para 2021, ou seja, estamos falando de 34 mil salas de aulas novas que precisam ser criadas só para absorver os alunos-órfãos; órfãos da escola privada.

A uma parcela dessas 34 mil novas sala de aulas me preocupa mais. Ela será composta daquelas crianças com história inversa: serão a primeira geração na família a estudar na escola pública. Insisto na questão do amparo e do afeto: Como deve ser o acolhimento e o trabalho em torno de uma criança que pela primeira vez na história da família irá para a escola estadual ou municipal na qual ela nunca adentrou? Ou ainda, como será conviver num lugar onde nenhum outro membro da família esteve antes? A família está trabalhando isso como perda? A família está ignorando essa questão? Esta indiferente?

Essa é a minha verdadeira questão aqui. Os alunos-órfãos da escola privada não têm culpa da situação econômica de seus pais. Muitos são vítimas da negligência do (i)responsável pela família. Muitos, é claro, vivem a fatalidade, a perda do emprego dos pais, a morte na pandemia e outras situações. Mas há aqueles alunos cujos pais viveram a ilusão da classe média, da viagem da CVC pra Porto Seguro, das passagens de avião até pra voltar do trabalho pra casa, do consumo, do consumo, do consumo – tudo insustentável!

Não importa o quadro que levou estas crianças a perder a escola privada, a escola pública, junto com os pais, no Brasil, precisa pensar em como acolher esses alunos neste ano letivo ainda em isolamento, ensino remoto e pandemia. Como dar a esses alunos uma visão otimista da escola de todos e para todos.

Como mostrar para as crianças que a ida para escola pública não é um castigo ou uma perda, apenas uma mudança, como estações se modificam tempos em tempos.

A escola pública pode ser surpreendente. A escola pública é um pedaço de delicadeza do paraíso. A escola pública é a única chance de muitas crianças se fazerem realizadas e construídas ao longo da vida. E há, graças a Deus, muitas crianças que aprenderam a amar a escola pública e a acreditar nela.

Qualquer que seja a crise ou a sua origem familiar, a criança precisa compreender que o estudo é a condição absolutamente certeira de garantir que isso não irá acontecer nem com ela e nem com seus filhos no futuro, tendo qualificação sólida e protagonista. É na escola publica que os alunos podem descobrir que tudo depende deles mesmos: que o circo esteja armado, que o palhaço esteja engraçado e que a vida sobreviverá – tudo depende de nós. Depende tudo deles e de seus pares.

É na escola pública que o aluno pode perceber que sua professora, embora muito “sabida”, vem de ônibus, usa só calça legging e camisetão. Todas tem uma coleção disso que é pra dar conta de subir em ônibus, segurar criança, trepar no armário pra pegar livro, entre outros tantos apuros.

É na escola publica que muitos alunos vão descobri que a merenda é feita pela professora, a bunda dos pequenos é limpa pela mesma professora, o caderno é corrigido pela mesma professora, a divisão do quadro em 4 partes é feita pela mesma professora e na hora de chegar ou de ir embora quem está na porta do ônibus contando é a mesma professora.

Na escola pública falta sim muita coisa, mas lá sobra também muita coisa. Outro dia meu filho me perguntou: Pai o que é improvisar? Eu pensei em mil respostas para lhe dar naquele dia, mas uma me ocorre agora, “improvisar é educar, e educar é persistir com delicadeza”. O improviso na escola pública é uma delicadeza do ato de ensinar.

Então, pais e responsáveis, creiam na escola pública. Ajude a escola pública, respeitem a escola pública. Com crise ou sem crise ele está sempre lá. A escola pública não vai deixar de renovar a matrícula do seu filho. A escola pública suporta você falar mal dela, ir embora pra outra melhor e se você precisar, ou se arrepender, você pode voltar que haverá sempre uma escola aberta para te receber. Lá todos são mestres em perdão. Lá todo mundo sabe também o que é ingratidão.

Lá na escola pública, vivem “gentes”. Lá na escola pública há muitas “gentes”. Gente de fina estampa, inclusive. Lá habitam sonhos, lá há utopias, lá há espaços para o criar e o protagonismo. Lá, há, espaço para o seu filho se educar sim e há espaço pra você ajudar na educação dele também.

E, se nenhum desses argumentos te convence de que a nova escola do seu filho é um pedaço de delicadeza do paraíso, lembra desse que aqui vos escreve, saído de uma escola pública multiseriada do vale do Paranapanema, com 3 reprovações ao longo da caminhada, filho de pais e avós analfabetos. Hoje com 74 livros publicados em 4 diferentes idiomas, trabalhos educativos realizados em 4 continentes e agora chegando ao pós-doutoramento. 30 anos sendo aluno da escola pública. 30 anos acreditando nela. 30 anos sendo grato por tudo que ela ainda há de me dar. À escola pública, meu respeito e minha reverência maior. BEM VINDOS NOVO ALUNOS À ESCOLA PÚBLICA!

Gassho
Prof. Dr. Geraldo Peçanha de Almeida

A pandemia nos fez experimentar o futuro

A pandemia nos fez experimentar o futuro. A pandemia nos fez experimentar o isolamento social. Isso é, de fato, o que nós, homens e mulheres, vivenciaremos na velhice – o isolamento social.

Lembro-me de ouvir Oscar Niemeyer dizer, aos 102 anos de idade, que o mais triste de ter mais de 100 anos é que você não tem filhos, irmãos, pais, ninguém. Todos já morreram. Ele falava isso com uma verdade tão profunda que eu chegava a tocar nessa dor descrita por ele em palavras. Verdadeiramente muitos idosos já experimentam essa dor e muitos de nós a experimentaremos um dia.

Não quero dizer aqui que todos nós na velhice viveremos sozinhos. Tomara que não! Mas, adianto, com toda a amorosidade e delicadeza, o que em grau maior o menor acontecerá com todos nós – vivemos parte de nossa vida em isolamento social.

Sempre que alguém me pergunta sobre as dores que um psicanalista toca dentro de um consultório eu menciono as duas principais; as duas dores mais doloridas; as duas dores mais dilacerantes: a traição e a solidão. Elas rimam entre si e não por acaso, são parentes.

Eu ouço semanalmente quem experimenta as duas dores, ou seja, a solidão e a tentativa de superar uma traição. Triste. Pura verdade. Vida difícil.

Sei, e olha que eu juro que sei, que muitos idosos estão sozinhos por conta do isolamento dos filhos e das famílias. Alguns idosos nem filhos e nem família têm mais. Não porque todos esses já morreram fisicamente, mas porque a maioria deles já morrem funcionalmente para aquele idoso. Ou seja, muitos idosos experimentam em vida a morte de suas funções: eles morreram pro mundo do trabalho, eles morreram pro mundo das festas e das convivências sociais, eles morreram pro mundo intelectual e, enfim, morreram. Estão isolados e não conseguem acessar mais seus pares de um dia.

Tenho uma paciente idosa cujo filho vem visitá-la aos sábados às 11h30 da manhã. Ele chega, sobe até o apartamento dela, desce até o carro que fica na garagem e leva-a até o mesmo restaurante de todas as semanas. Lá ela recebe o prato pronto da mesma comida de todas as semanas anteriores e em menos de 2 horas esse filho a devolve no mesmo lugar e do mesmo modo.

Ao longo de anos e anos essa rotina está se mantendo – o filho só pode dar à mãe 2 horas de seu tempo semanal. Porém, mesmo sendo 2 horas, ela nem sequer pode escolher outra comida do cardápio. Alias elas nem sabe que naquele restaurante há um cardápio.

Essa é uma das realidades do “mundo da terceira idade”. Eu sei que há uma ideia de que a terceira idade viaja, faz festa, vai ao bingo e consome. Mas, insisto e pergunto: onde estão esses idosos? Há, eu sei, mas esses são exceções e não regras. É triste, mas há que se aceitar que a velhice é um incômodo para a grande maioria da sociedade. Nós, eu, você e tantos outros seremos incômodos um dia. Nós aceitamos, de fato, mas há um limite, uma tolerância, uma margem para a aceitação, e dali em diante não temos mais mecanismos.

A velhice reserva para muitos a solidão, o uso intenso de medicamentos e o comprometimento com dívidas. Sim, não estou errado. Basta ler as pesquisas e constatar o número de idosos que tem suas aposentadorias totalmente comprometidas com empréstimos – muitas vezes realizados por membros da família e não por eles. Fora isso, muitos precisam tentar se manter em tratamentos e mantimentos com um salário que não pode ser acrescidos mais. Sobre isso se coloca ainda um país que teve que ter o estatuto do idoso aprovado. Por que você acha que um país precisa de um estatuto de idoso? Precisa porque tudo está maravilho? Acordem! A velhice carnavalizada pela mídia é rara ou não existe. A velhice é um tempo de solidão e de problemas também. Não estou generalizando, mas estou alertando para o isolamento pelo qual muitos idosos vivem ou pelo qual nós iremos viver e que muita gente prefere tapar os olhos.

Você que me Lê, por que você acha que os idosos são isolados e você não será quando lá chegar? Você que me lê, quais garantias você tem para que na sua velhice todos os dinheiros que você precisar pra pagar suas contas você terá? Quais garantias você terá de que haverá amigos pra você com eles estar, viajar, almoçar ou jantar? Quem te deu certeza que sua saúde física e mental dará conta de uma vida em isolamento social?

Na verdade, não há essas certezas. Na verdade não há essas garantias. Na verdade não há essas promessas e nós, eu e você e todo mundo, precisamos nos atentar ao fato de que o pequeno isolamento trazido pela pandemia, que nos impediu de ir aqui e acolá, de nos aglomerar; foi uma amostra do que há de vir por aí. O isolamento social nos trouxe angústias e solidões e tocou em nós em pontos que antes nada tinha tocado – nos pontos da melancolia. E, para cada um desses pontos tocados temos um parecer e uma sensação que nós precisamos usar pra nos fortalecer pro futuro.

Que todos nós possamos tirar dessa pandemia e desse isolamento social várias lições e uma das mais importantes é que, no futuro, na nossa velhice, iremos viver no isolamento frequente, sem festas, sem lugares pra ir, sem pessoas, sem contatos sociais e sem utilidade. Se isso é uma realidade que te assusta, comece agora e fazer brotar vida interior pois quem tem vida interior não padece de solidão. Mas se você nem sequer quer ou aceita, minha sugestão é que você comece agora a pensar nisso – cuidado, sem se precaver você é o maior risco pro mundo.

Você é o maior problema que o mundo no futuro terá que enfrentar: o que fazer com idosos que estão vivendo mais, porém sem qualidade de vida. Viver mais, alongar a vida, viver com remédio e pelos remédios não é necessariamente viver. A vida plena, mesmo na velhice, requer alegria na alma, requer diminuição de coisas e pensamentos. O idoso feliz vive com pouco. Na verdade, com quase nada. O idoso feliz tem muito que dizer. O idoso feliz tem palavras, tem lembranças, tem histórias, tem sabedorias, tem tempo de interlocução e tem conselhos. Se esse idoso encontra com quem dividir isso, eis a felicidade de todos – de quem fala e de quem ouve. Mas, se nada disso que ele muito tem e muito pode, servir, todos perdem porque não aproveitar o que o idoso sabe é um desperdício de vida, um desperdício de ouro e ninguém pode ou deve desperdiçar algo tão valioso. Pensem nisso.

Com amor e delicadeza.
Prof. Dr. Geraldo Peçanha de Almeida